recomendar este canal

Oona e o Gigante

Um conto irlandês

Há muitos, muitos anos, havia imensos gigantes na Irlanda. Os gigantes eram grandes rivais uns dos outros e sempre que se encontravam, andavam aos socos e pontapés até que um desistisse ou fugisse. Mas todos concordavam que o maior gigante era Cuchulainn. Ele nunca tinha apanhado uma tareia e tinha conseguido derrotar praticamente todos os gigantes do país.

Só havia um gigante contra o qual ele não se tinha batido: Fionn mac Cool. É que Fionn conseguia saber o que se passava em todo o lado. Tudo o que tinha de fazer era pôr o polegar esquerdo na boca e chuchar para imediatamente saber o que tinha acontecido, o que estava a acontecer e o que iria acontecer. Assim, conseguia evitar encontrar-se com Cuchulainn, porque sempre que sabia que o gigante vinha lá, fugia e escondia-se até que Cuchulainn se fosse novamente embora.

Isto deixava Cuchulainn zangado. Queria ser conhecido como o maior, o mais feroz e o gigante mais feio de toda a Irlanda, mas enquanto não tivesse lutado contra Fionn havia sempre a hipótese, uma pequena hipótese, de ser derrotado.

Assim, um dia Cuchulainn resolveu ir à montanha onde Fionn vivia. Fionn tinha construído uma casa no alto da montanha; algumas pessoas diziam que era para poder ver a chegada de outros gigantes e esconder-se deles. Quando Cuchulainn começou a subir a íngreme encosta, Fionn espreitou pela janela e viu-o.

“Oh meu Deus!” – gritou ele. “O terrível Cuchulainn vem aí! Desta vez apanha-me de certeza”.

Acontece que Fionn era casado com Oona, que era tão inteligente como amável e tão bonita como astuta. Ela perguntou: “Quanto tempo falta para ele chegar?”

Fionn pôs o polegar na boca. “Por volta das três horas. E ele quer esborrachar-me como um monte de bosta. O que hei-de fazer?”

“Shhhh, fica sossegado” – disse Oona. “Faz o que eu disser e tudo correrá bem”.

Logo de seguida, Oona começou a fazer uma fornada de enormes bolos. Três deles como era habitual, mas nos outros três colocou pedras grandes. Quando ficaram prontos, Oona colocou-os em duas prateleiras – os três bolos normais na prateleira de cima e os três bolos com pedras na prateleira de baixo. Depois, disse a Fionn para se enfiar no grande berço de verga, onde ela o embrulhou num cobertor grande e lhe pôs uma touca na enorme cabeça. “Fica aí e finge seres um bebé” – disse ela. “Podes chuchar no dedo para saberes exactamente o que estou a pensar e o que quero que faças. Diz-me só uma coisa: de onde é que vem a força deste gigante?”

“Ah, do dedo do meio da mão direita” – disse Fionn.

Oona acenou com a cabeça, sentou-se na cadeira de baloiço e ficou à espera que Cuchulainn chegasse.

Exactamente às três da tarde, Cuchulainn bateu pesadamente à porta.

Fionn puxou o cobertor para cima da cabeça e começou a tremer de medo, mas Oona escancarou a porta.

“É aqui que mora Fionn mac Cool?” – trovejou Cuchulainn.

“É, sim” – respondeu Oona. “Faça o favor de entrar e de se sentar”.

Então Cuchulainn entrou, sentou-se na cadeira de Fionn e olhou em volta.

“Que rico bebé tem aqui” – disse ele. “Por acaso o pai não está em casa?”

“Lamento, mas não” – disse Oona. “Ele falou em qualquer coisa como ir apanhar um tipo pequenino chamado Cuchulainn. Tenho a certeza que já não se demora”.

“Eu sou Cuchulainn” – rosnou o gigante. “Há séculos que tento apanhar o seu marido, mas ele consegue sempre escapar”.

“Ah, então o senhor é Cuchulainn” – disse Oona. “Bom, ainda vai a tempo de fugir antes que Fionn chegue a casa”.

“Eu fugir dele!” – gritou Cuchulainn. “É sempre ele que foge de mim!”

“Creio que está enganado” – disse Oona. “Já viu o meu marido? É tão forte como uma rocha e tão rápido como o vento”. Ela sorriu. “Ah, e já agora, pode, por favor, dar uma volta à casa? O vento está a mudar”.

“Dar uma volta à casa!” – exclamou Cuchulainn.

“É o que Fionn faz quando o vento sopra de leste” – disse Oona.

Cuchulainn foi lá para fora e abanou a cabeça várias vezes; depois estalou o dedo do meio da mão direita três vezes. Em seguida, pegou na casa pelo meio e deu-lhe uma volta.

Lá dentro, os dentes de Fionn bateram com o medo, mas Oona mandou-o calar e quando Cuchulainn voltou para dentro agradeceu-lhe como se ele tivesse feito a coisa mais natural do mundo. Depois ela disse: “O tempo está tão seco e eu estou sempre a precisar de água. Pode ir encher esta vasilha por mim? Depois podemos tomar chá enquanto espera a chegada de Fionn”.

“Onde posso ir buscar água por aqui?” – perguntou Cuchulainn.

Oona apontou para um monte vizinho. “Está a ver aquela pedra no topo daquela colina? Sempre que precisamos de água Fionn vai lá, tira aquela pequena pedra do chão e enche a vasilha no rio que corre por baixo.

Obedientemente, Cuchulainn saiu e subiu ao monte. Quando chegou ao topo viu que a pedra era três vezes mais alta do que ele e que devia pesar várias toneladas. Fazendo estalar o dedo do meio da mão direita nove vezes, pôs os braços em torno da pedra e levantou-a de uma só vez do chão. Um rio jorrou do buraco e correu montanha abaixo. Em pouco tempo Cuchulainn tinha a vasilha cheia de água.

Oona fez um grande bule de chá e ofereceu a Cuchulainn um dos bolos especiais onde tinha escondido uma pedra. O gigante deu uma dentada e berrou. Cuspiu um enorme dente.

“Que tipo de bolo é este?” – gritou. “É duro como uma pedra”.

“É o bolo preferido de Fionn” – disse Oona. “Até o bebé adora. Mas talvez seja demais para si. Tome, experimente este, é um pouco mais macio”. E deu-lhe outro dos bolos com pedra.

Cuchulainn deu uma enorme dentada e no meio de um uivo de dor cuspiu dois dentes.

“Shhhh, não faça barulho” – disse Oona. “Vai acordar o bebé”.

Naquele momento Fionn chuchou no polegar e imediatamente soube o que Oona queria que ele fizesse. Deu o berro mais alto que alguma vez se tinha ouvido por aquelas bandas da Irlanda. Cuchulainn deu um pulo e tapou os ouvidos com as mãos.

“Meu Deus, esse bebé tem uns grandes pulmões” – disse ele.

“Oh, devia ouvir o pai dele” – disse Oona. “Quando grita, ouve-se em África”.

Cuchulainn começou a sentir-se desconfortável. Quando mais ouvia falar de Fionn mac Cool, menos gostava do que ouvia. Naquele momento, Fionn, que voltara a chuchar no dedo, abriu a boca toda e gritou com toda a força: “BOLO!”

“Pronto, pronto” – disse Oona, e deu-lhe um bolo da prateleira de cima. “Come isto”.

Cuchulainn olhava horrorizado enquanto o bebé comia o bolo todo até à última migalha.

“Acho que está na altura de me ir embora” – disse ele. “Diga ao seu marido que tenho pena não o ter visto e parabéns aos dois pelo lindo bebé”.

“Oh, é uma criança maravilhosa” – disse Oona. “Venha ver”. Oona puxou o cobertor para trás e Fionn gritou e deu pontapés no ar com toda a força.

“Que ricas pernas tem” – disse Cuchulainn.

“Sim, e os dentes estão a romper como deve ser” – disse Oona. “Ponha o dedo para os sentir”.

Achando que lhe ia agradar e que depois se punha a andar dali para fora antes que o terrível marido chegasse, Cuchulainn pôs a mão na boca do bebé.

Rápido como um relâmpago, Fionn mordeu o dedo do meio. Cuchulainn gritou tão alto que se ouviu em Timbuktu. Depois, à medida que a sua força se começou a esvair, ele foi ficando cada vez mais pequeno. Encolheu até ficar mais pequeno que os bolos feitos por Oona. Fionn e a mulher olharam para o pequeno gigante e sorriram. Cuchulainn deitou-lhes uma olhadela e saiu da casa a correr, fugindo montanha abaixo. O que lhe aconteceu a seguir não sabemos, porque nunca mais ninguém o viu nem ouviu falar dele na Irlanda.

Quanto a Fionn mac Cool, agradeceu à sua astuta mulher e comeu outro dos seus óptimos bolos.

 

 

Conto gentimente cedido pela Embaixada da Irlanda em Portugal