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O Herói de Haarlem

Uma lenda holandesa

"Há muitos, muitos anos, vivia em Spaarndam um menino que tinha cerca de oito anos.

 

O pai dele era guarda de comporta e às vezes deixava-o ir com ele até ao cimo do dique ou lá abaixo, à terra seca.

Numa tarde de Outono que prometia tempestade a mãe entregou-lhe umas panquecas e pediu-lhe que as levasse a um velhote que era cego e que morava no campo. O menino lá foi e ficou um bocadinho em casa do seu velho amigo.

 

Quando começou a chuviscar, disse-lhe:

- "Vou voltar já para casa!"

 

E, com o pratinho vazio debaixo do braço, atravessou o dique a caminho de casa. Mas mal tinha iniciado a caminhada, olhando em redor, reparou que o nível da água no dique tinha subido muito.

 

"Isto não é nada bom sinal", pensou e apressou o passo. O vento soprava com força e o nível da água subia cada vez mais. Começava a ficar muito escuro e o menino caminhava ainda mais depressa. Por fim, desatou a correr.

 

Mas, de súbito, parou. Ouvia-se ali um ruído estranho.

Seria o vento, uma tempestade prestes a rebentar? Deu mais alguns passos devagar. Aquele ruído era cada vez mais claro.

Não, o vento não era. O ruído vinha de dentro do dique. Mas de onde? E o que seria?

 

Com cautela, o menino desceu pelo dique e começou a procurar o sítio de onde vinha aquele barulho. Sim, agora já devia estar perto, porque o ruído se ouvia cada vez melhor.

 

Oh, o que era aquilo?

Espantado e assustado, o menino ficou imóvel. O seu coração começou a bater muito depressa. Dali jorrava um fiozinho de água. Não de cima do dique, mas de dentro do dique. Devia existir um furo. E se ele não fosse tapado depressa, todo o terreno ficaria inundado e também a cidade de Haarlem estaria ameaçada.

 

Apressadamente procurou o ponto de onde jorrava a água e depressa descobriu um buraquinho. Era um buraquinho muito pequeno, o seu dedo cabia lá mesmo à justa. Então o ruído da água a correr deixou de se ouvir e não saiu nem mais uma gota de água do dique.

"Agora tenho de ficar aqui quieto", pensou o menino, "porque se eu tirar o dedo do buraquinho, ele fica cada vez maior e então, e então..." "Socorro, socorro!" gritou com quantas forças tinha, mas ninguém o ouviu, porque ninguém atravessava o dique àquelas horas.

 

"Então tenho de ficar aqui até amanhã de manhã", disse o menino valentemente. E lá ficou, toda a tarde e toda a noite.

 

Ficou enregelado e completamente hirto. Teve a sensação de nunca mais voltar a poder mexer-se. Gritou pela mãe e gritou pelo pai, mas eles não o ouviam. Decerto andavam agora à procura dele.

E a noite avançava e o vento assobiava.

A água batia contra o dique. Era como se murmurasse: "Quero passar, quero passar!" Mas o menino ficou ali quieto, com o dedo enfiado no dique e nem mais uma gota de água de lá saiu.

 

Assim foi encontrado ao romper da manhã do dia seguinte por um frade. Então, foi logo socorrido e levado para casa.

 

Tinha salvo a cidade e o país de uma grande desgraça. Era um verdadeiro herói!"

 

 

 

Autor: Conto gentilmente cedido pela Embaixada Real dos Países Baixos